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quarta-feira, 29 de julho de 2009

Entrevista - KIZZY YSATIS



ENTREVISTA COM O VAMPIRO

Confesso que a primeira vez que vi a capa do livro “O Clube dos Imortais: A Nova Quimera dos Vampiros” minha reação foi uma mistura paradoxal de admiração e desdém. Admiração pela arte incrível que a ilustrava e desdém pelo nome do autor que parecia algum pseudônimo de guru new age. Quase impronunciável aliás. Kizzy Ysatis. “Yisátes?” Não, “Ísatis” disse meu amigo.

Tendo minhas únicas felizes experiências vampirescas na literatura até então sendo sido Drácula de Bram Stoker e Entrevista com o vampiro de Anne Rice (este último lido em um underground ao som de heavy metal amador) não botei muita fé. O livro havia ganhado um daqueles prêmios sérios de literatura, o Raquel de Queiroz, e o autor fora sujeito de uma memorável entrevista no Jô Soares. Mas meu caráter iconoclasta na época (desconfie de tudo que dizem que é bom!) não me permetiu o terrível esforço de pedí-lo emprestado.



Então anos depois me deparo no Youtube com aquela famigerada entrevista. Apesar do exotismo da personagem do entrevistado com cara de Johnny Depp a la Tim Burton, capaz de pagar um dentista para fazer caninos pontiagudos permanentes com resina, e de se exibir em rede nacional com um sobretudo roxo e cartola, o seu carisma, o seu humor e o forte indício de uma visão criativa despertaram em mim aquele mínimo de interesse que faz a gente correr atrás das coisas. Qualquer coisa.

Não só Cristiano Marinho (o nome na Carteira de Identidade de Ysatis),
era considerado um especialista de um subgênero do terror, mas havia conseguido ultrapassar a barreira do preconceito do meio literário e bolar (e então meu RPGista interior ficou mordido) um novo cânone ou “história de origem” para os vampiros que fazia aquela velha história de Caim que Mark Rein Hagen botou no Vampiro: A Máscara de 1991 um blábláblá datado e sem criatividade. Os vampiros asraelitas de Kizzy descendiam igualmente de figuras bíblicas, mas de anjos caídos do Livro de Enoch. E tinham explicações saborosas para seus poderes e fraquezas.

Consegui o livro que descobri que na verdade pertencia a um amigo de meu amigo. Li o Clube em um fôlego só. As surpresas dessa história de vampiro (e bruxas, e lobisomens...) que ao mesmo tempo que se passa no Brasil contemporâneo, bebe da história e da literatura do nosso país, sem recorrer a caricaturas de cultura popular e sem clichês mal digeridos me levou aos extremos do entusiasmo.


Tanto que deixei de lado a minha antipatia pelo protagonista
( que como toda boa narrativa gótica é ofuscado pelo brilho obscuro do antagonista ) algumas pontas soltas da narrativa, a bissexualidade pós- annericeniana dos sanguesugas que já se tornou canônica e algumas pontas soltas da narrativa e pude constatar que a obra era realmente DO CARALHO.

Tentei saciar minha vontade de um repeteco daquela experiência indo atrás de outras obras do Kizzy: seu segundo romance “Diário da Sibila Rubra”, suas antologias, seus contos, seu blog. Mas no fim ficava mesmo aquela vontade interna, aquela negócio mais ou menos assim, uma vozinha que diz “putz, imagina só se encontro esse cara pra bater um papo de boteco”.



Direto da periferia cultural do mundo para a internet, resolvi abordar o fulano e jogar na lata minha admiração e meus pontos de interrogação. O pretexto chinfrim do qual estava munido era a idéia estapafúrdia de pedir uma entrevista via e-mail para o meu blog merda e mal visitado.


Imagine só se um cara que já havia ido ao Jô ia perder tempo com um zé ninguém professorzinho furreca de cidade pequena que nem eu .
NÃO É QUE O MALUCO TOPOU?!

Abordei Kizzy Ysatis por Orkut. Ele me adicionou e respondeu todos meus scraps sem nenhum estrelismo ou síndrome de celebridade. A minha inépcia como entrevistador ficou mais do que clara, aquelas cinco perguntas “geniais” sobre “o processo criativo do artista” (?!) que eu tinha elaborado no final devem ter deixado a impressão de no entrevistado que eu era alguma espécie de ogro bêbado atacando seu trabalho. Era a tar da mardita da ambigüidade.


No mais me restava apenas constatar de que realmente não é preciso de diploma para ser jornalista. Mas que deve ajudar, ajuda.


E
é claro. Postar toda a coisa:

EU: Um lugar comum, para começar. Além do sobrenatural e da mitologia quais outras temáticas interessam a você como escritor? Já em aspectos formais de escrita ("estilo") quais os autores e obras que você acredita que tenham influenciado diretamente a escrita de livros como O CLUBE DOS IMORTAIS : A NOVA QUIMERA DOS VAMPIROS e O DIÁRIO DA SIBILA RUBRA?


Kizzy Ysatis: Todas as temáticas me interessam. Acredito que um escritor não deva se prender a um único assunto, do contrário será limitado. Embora eu sempre vá permear o fantástico. Todos os livros que li influenciaram, de um jeito ou de outro, a minha escrita. No entanto, na época em que escrevi o Clube dos Imortais, eu lia muita poesia romântica, Oscar Wilde e livros espíritas (dos bons, odeio Zíbia). Parecem temperos díspares, não? Menos para a imaginação que costura as idéias. Já na feitura de Diário da Sibila Rubra, lia só mulheres: Virginia Woolf, Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon, Clarice Lispector, entre outras.

EU:
Descreva seu processo criativo. Qual a primeira etapa que você empreende ao iniciar a escrita de um conto ou romance?

Kizzy Ysatis:
Você não começa uma obra literária sem uma semente, e essa semente é a idéia, que surge num sonho (na maioria das vezes) ou de um devaneio. Por isso, durmo com um caderno e o celular para usar de lanterna. Deixo ao lado do travesseiro. Jamais saio sem uma caderneta e uma caneta pelos bolsos. O ócio é a alavanca mais poderosa do artista. No vazio, a imaginação emerge.

EU:
Uma provocação: O que é mais importante, pesquisa ou imaginação?

Kizzy Ysatis:
Não vejo como provocação, acho até uma pergunta pertinente. A verdade é que não é nenhuma nem outra. Ambas são coisas distintas. Da imaginação brotam as flores, a beleza, a criatividade e a autenticidade da tua obra. A pesquisa reforça a narrativa. É um adubo. Ou um forte pilar para sua construção literária. A pesquisa torna teu texto verossímil. A verossimilhança é o tempero que vai manter teu leitor fiel a escrita. Você pode falar de Plutonianos no Havaí, tendo uma coerência verossímil, o leitor passa a acreditar na história. Agora veja bem, não preciso explicar que essa verossimilhança não tem de ter, necessariamente, um pé na realidade, mas, sim, na realidade condizente ao que se afirma na trama. Certo?

EU:
Você já afirmou uma vez trabalhar em mais de um Romance ao mesmo tempo. Ainda adota essa metodologia? Quais os prós e contras dessa abordagem?

Kizzy Ysatis:
Em cada romance, eu provo uma idéia nova. Um jeito de criar diferente, a fim de ver para quais veredas posso ser carregado. Às vezes, escrevo mais de um romance ao mesmo tempo, mas é fácil. É o mesmo que fazer dois pratos, como sua mãe faz no Natal. Enquanto assa o peru, ela prepara um doce, unta uma forma, e por aí vai... Particularmente, vivo uma desordem. A escritora Flávia Muniz diz que sou um caos. Eu escrevo o livro que me chama. Obedeço só ao meu desejo, ao prazer de escrever. Sem tesão, não rola.

EU:
Como um escritor que já participou de projetos de escrita coletiva (A TRÍADE) e de antologias de contos (BRAINSTORM, O LIVRO NEGRO DOS VAMPIROS, TERRITÓRIO V: VAMPIROS EM GUERRA) qual é a sua opinião a respeito desse tipo de trabalho? Obras por editoras que já foram rotuladas por muitos de "Vanity Press" (onde grande parte das tiragens dos livros são pagas pelos autores) realmente contribuem para divulgar escritores iniciantes ou acabam na maioria dos casos apenas engessando suas imagens em estereótipos e rótulos como o de "autores menores" ?

Kizzy Ysatis: Quem aplica tais rótulos, e estereótipos, ou são os invejosos ou os covardes, ambos oriundos da mais pura vileza, trajados nos andrajos da baixeza. Vamos separar bem as coisas. Território V nada tem a ver com pagar qualquer coisa. Foi um concurso válido em todo o território nacional para eleger apenas 9 que entraram na seleta por mérito, e não tiveram, nem precisarão, pagar absolutamente nada. Pelo contrário, foram pagos e ainda tiveram o luxo de estrearem ao lado de 10 escritores conhecidos e que já estão no mercado. Queria eu ter começado assim, queria eu ter tal prêmio!



No caso do Brainstorm foi uma cooperativa. Foi minha estréia e não me vi como autor menor. Não há rótulo que consiga subverter o artista quando este é audaz. Este livro me abriu as portas para uma editora maior, a Novo Século. E agora estou aí, pelas vitrines de todo o país. Por fim, em O livro negro dos vampiros, ajudei o escritor Cláudio Brites a selecionar 50 autores entre mais de trezentos lidos. Não foi qualquer um que entrou, houve critérios.




EU: Qual a sua opinião a respeito da nova onda de literatura infanto- juvenil estrangeira? (Harry Potter, Crepúsculo.) Se por um lado esses livros estimulam a leitura, contribuem para criar ainda um abismo entre cultura pop e uma literatura "séria" que contemple questões estéticas ou temáticas provocantes e mais maduras?

Kizzy Ysatis:
Depende do que você enxerga como literatura séria, há um preconceito nessa pergunta. Porque tem gente que tem preconceito com o que faço, como se não fosse sério escrever sobre vampiros. Vá se catar os críticos e acadêmicos frustrados, vão se catar os invejosos, que se mordam os incapazes. Hans Andersen tocou no que tinha de mais profundo da alma humana usando apenas um patinho feio, desajeitado e rejeitado pelos irmãos, pelos iguais, criticado e injustiçado por ser diferente. Ah, mas que lindo cisne se provou ao crescer. Se eu conseguir fazer o mesmo com meus vampiros, morro feliz. E que livro pode ser mais sério que O pequeno príncipe? Ora, meu amigo, não é a temática que faz o livro bom, é o autor. Por isso acho que Harry Potter não tem nada a ver com o lixo que é Crepúsculo. J.K. Rowling sabe escrever. Por favor, não a compare com aquela “malhação” com pseudo-vampiros-emos-purpurinados.


EU:
Ainda mais uma vez e em todo caso, grato pela atenção dispensada.

Kizzy Ysatis:
Eu que agradeço. ;-)



EU:
Na verdade a entrevista acabou por aí. Mas pseudo- vampiros-emos- purpurinados foi fóda. Fóda.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Top 13 - Short Fiction


Inspirado por aquela seção de Revista (Superinteressante? Eu acho.) 5 Luxos e 1 Lixo resolvi fazer meu próprio top, de melhor short fiction: incluindo contos, crônicas e pastiches literários.

Tentei colocar meus favoritos e fugir um pouco dos “lugares comuns” (Não , admito que ainda não li Chekhov nem Guy de Maupssant.) Além disso deixei de fora coisas que realmente queria incluir como Edgar Alan Poe e sua excelente A Milésima Segunda Noite de Sherazade ou
Tolstói com seu conto De Quanta Terra Precisa um Homem? Ou seja excluí muita coisa que gosto. Mas muita coisa que detesto também.

Senhoras e Senhores eu lhes apresento

12 APOSTÓLOS...


1-
Os Escrivães – Dino Buzzati
Perfeito. Simples. O Número Um. Obrigatório para maiores de 60 anos e para todo graduando que já enfrentou ou está enfrentando uma Monografia...

2 – Frontal com Fanta - Jorge Furtado
Se você gostou de “O Homem que Copiava” ou “Ilha das Flores” vai gostar desse conto. Long live Post-Modernism.

3 – A Casa TomadaJulio Cortazar
Realismo fantástico na veia. Adoro os personagens e a insólita situação problema que eles vivem.
Sempre fiz uma leitura "social" desse conto , mas se eu estiver certo ela é também muito sutil.

4 – Ultimo Viene Il Corvo - Italo Calvino
+ Realismo Fantástico. Dessa vez ambientado durante a Segunda Guerra Mundial. Aprenda a ler italiano ou descole uma tradução.

5 – A Biblioteca de BabelJorge Luis Borges
Para aqueles que se consideram leitores fanáticos. Um metáfora do próprio universo.

6- Tlon, Uqbar, Orbis Tertius - Jorge Luis Borges
Para quem gosta de “O Pinky e o Cérebro”. Intelectuais conspiram satânicamente para transportar seu mundo ficcional para o nosso.

7- O Aleph- Jorge Luis Borges
Para aqueles que já quiseram ser oniscientes. Borges contempla o infinito, e se vinga!

8 – Como Viajar com um Salmão - Umberto Eco
Um relato real sobre as diatribes da informática, da globalização e da conserva de alimentos.

9 – Leaf by NiggleJ.R.R Tolkien
Esqueça elfos, anões e hobbits. Na minha opinião essa é a melhor coisa que o “professor” já escreveu.

10 – As Time Goes ByLuís Fernando Veríssimo
A melhor fan fiction de Casablanca. Mas também não conheço muitas...

11 – O NadadorJohn Cheever
Quem nunca teve o sonho de atravessar o bairro nadadando de piscina em piscina? Eu nunca.

12 – Como conversar com garotas em festas Neil Gaiman
Londres. Dois amigos. Era do Punk. Mulheres. Festas. Bebida. E Alienígenas!!! Precisa dizer mais alguma coisa?!

E 1 CRISTO!!!

1 – SIMFernando Ferric
Tive acesso a esse conto através de um amigo. Quem entende já percebeu que amo Realismo Fantástico, pitadas de Surrealismo, finais abertos, e mesmo aquela narrativa detetivesca. (toda metida a pulp). Mas ISSO eu considero um exercício ruim. Why? Por que apesar da situação "enigmática "o conto realmente não me diz absolutamente nada.

Perdão ao Ferric por usar de o texto dele de mau exemplo. Mas Jesus também foi injustiçado...

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Muito barulho por nada?


O FAZER CINEMA VS. O FAZER LITERATURA.


Bem vindo novamente, (hipotético leitor) ao GRILO FALANTE.


Andei ocupado esse mês com os sempre extenuantes deveres da vida de professor e resolvendo os dilemas que reserva o meu desconhecido futuro acadêmico – profissional.


Mas não foi só isso.


Nos últimos dias embarquei por puro diletantismo na gravação de FICÇÃO, um curta amador para ser exibido no MOSCA 5. O roteiro e o argumento são de minha parte, a adaptação bastante poética do conto “La Cosa de Umberto Eco. A produção, se é que se pode produzir um filme de 20R$ e muitos favores) e parte da direção também.


O trabalho de câmera ficou por conta do Marcelo Telles II e o figurino e material de cena e outras contribuições por conta do resto da nerdada. A edição e a dublagem permanecem uma incógnita até segunda ordem.


Enfrentamos vários problemas na gravação, especialmente com a organização (o já clássico aborrecimento da falta de comprometimento) e o cronograma. Ainda acho que a decisão de usar adultos feitos nos papéis principais foi a mais acertada e dá uma “seriedade” maior ao trabalho (mesmo o filme se tratando de uma comédia), mas sempre compromete as coisas pela falta de agenda já esperada para gravação e ensaios.


No fim, estava pensando outro dia, sempre acaba sendo aquela corrreria e muita dor de cabeça, em troca de algo sem dúvida divertido, mas um tanto efêmero.


TAÍ!


Cinema foi um troço que eu nunca quis mexer. Gostar de cinema, ver cinema, ir ao cinema (ou melhor ira ao DVD e a TV á cabo) e escrever e comentar sobre filmes em geral são coisas que adoro. Parte do meu dia-a-dia. Coisas sem as quais eu não conseguiria viver.


Mas se alguém me perguntar se eu já tive o sonho de ser um grande diretor, ou trabalhar nessa área fora de qualquer coisa que não seja roteiro (ou argumento) eu tô fora.


Arte por arte prefiro escrever.


O Cinema apesar de ter maior visibilidade continua sendo um veículo caro, e uma praia que exige muitos contatos e, sobretudo trabalho de equipe (ou um diretor – ator-produtor lunático e obsessivo com mão de ferro). Compensa o esforço? Compensa. Mas somente para aqueles que querem embarcar no hype do audiovisual e que o consideram seriamente a profissão.


Para aqueles como eu monges venenosos, monstros tímidos, Corcundas de Notre-Damme reclusos em suas torres e kitinetes, escrever é um hobby que acaba sendo algo muito mais individual, solitário e prazeroso.
Ainda por cima tem a vantagem de se ser um meio muito mais barato e um universo produtor de significados muitíssimo mais amplo.


Mas meu desapontamento com o fazer da sétima arte talvez não seja uma coisa tão ruim. Como disse Jorge Furtado esse é um tempo que conhece muito diretores, mas poucos autores.


E numa indústria onde o Cinema fica cada vez mais dependente e parasitário da Literatura (estou começando a sentir remorsos pelo roteiro adaptado) talvez essa última acabe sendo um desperdício de tempo um pouco mais nobre.