segunda-feira, 29 de junho de 2009

Resenha - Lost in Translation (2003)




PERDIDOS EM TOKYO


“Lost in Translation” (título brilhante traduzido não sem uma certa ironia para “Encontros & Desencontros”) filme vencedor do Oscar de melhor roteiro original lá no ido ano de 2003 é considerado até o presente momento de publicação nesse blog a Magnum Opus de Sofia Coppola.

O filme trata de temas como solidão, alienação, choque cultural e geracional. Conta a história de dois estadunidenses: Bob Harris, um ator decadente que vai para o Japão gravar um comercial de whisky (dá-lhes Bill Murray!) e Charlotte uma jovem recém formada e negligenciada pelo namorado workaholic (sabe-se lá como ele conseguia ignorar a onírica Scarlet Johanson); e a amizade/ paixão que se estabelece entre essas duas criaturas enquanto eles na condição de patéticos peixe- fora- d’água tentam sobreviver as suas jornadas melancólicas na surreal Tokyo pós-moderna que serve de pano de fundo para a narrativa.

As personagens do filme transcorrem seus dias perdidos em um ambiente cultural diverso, exilados do mundo em um hotel onde transcorre boa parte dos eventos da história e a total ausência de legendas por parte do elenco japonês nos leva a experimentar a mesma sensação de desorientação pela qual passam os personagens. O filme está cheio de cenas memoráveis sobre as quais não vale a pena comentar estragando a surpresa de quem ainda não o viu.





Os filmes de Sofia celebrados por todos pela retratação do universo feminino aprisionado são também uma excelente ponte para se pensar o papel de nós homens, o machismo cansado e o eterno abismo na compreensão da mulher. Copola poderia ser considerada uma modelo de feminista que não recorre a sexismos, evita lugares comuns, não demoniza o sexo oposto e não cai em generalizações grotescas.

Li uma crítica dizendo que apesar da ênfase na temática da comunicação, Sofia errou ao retratar o Japão Moderno de forma caricata, preconceituosa, e mesmo “racista”. Não concordo já que o Japão serve em primeiro lugar de ambientação exótica ao ocidental e de um pretexto narrativo necessário pois o filme jamais impactaria o seu público alvo (nós ocidentais) com o uso de signos conhecidos com os quais estamos acostumados.

Na medida que para o espectador que não é ingênuo o filme assume essa sua visão “de fora” e tenta justamente retratar não o país em si, mas a visão das personagens outsiders o contraste dos americanos deprimidos com o fetichismo ocidental presente na sociedade nipônica que mesmo muitos japoneses reconhecem e criticam.

Apesar dos ares de “comédia romântica” Lost in Translation não agradará os espectadores médios ou casuais. Isso por que o filme tem uma narrativa lenta e com pouca ação, insiste em uma visão quase turística e obsessiva do panorama Japão, e pelo seu final genial, mas cruelmente muito, muito, muito frustrante.

Daqueles finais abertos que se beneficiam de fruição, reflexão e sensibilidade na mesma linha de “Onde Os Fracos não tem Vez” (2007), mas que consegue ser ao mesmos tempo um daqueles emocionantes e inesquecíveis. Lost in Translation pode ser uma experiência mágica se for assistido com uma mente aberta e por uma mente descansada (ou regada a cafeína.)





Além de Encontros & Desencontros a diretora Sofia Coppola é conhecida pelo também excelente “As Virgens Suicidas”(1999) adaptado do romance homônimo e o mais recente Maria Antonieta (2006) que desagradou muitos críticos de plantão por sua estética pop e anacrônica.

Menos decorosamente ela é conhecida por ser a filha de um monstro sagrado como Francis Ford Coppola, tendo participado em seu O Poderoso Chefão: Parte III (1990) numa atuação café-com-leite-mamão-com açúcar como a personagem Mary Corleone, e por relacionamentos pessoais com figuras cultuadas do mundo da arte a exemplo do seu casamento com diretor Spike Jonze, e umas farras aí com o Tarantino.

Pessoalmente devo confessar que embora reconheça o brilhantismo técnico do paizão, os filmes do Francis nunca me agradaram muito. Gosto mesmo apenas do O Poderoso Chefão original , algumas cenas antológicas da Parte 2, e me desculpem por abominar o na minha opinião chatissímo e datadíssimo Apocalipse Now. Não sou um fã ardoroso de Dom Coppola.



Já por sua filha eu me apaixonei.



sexta-feira, 29 de maio de 2009

Ensaio - Política - Fantapolítica VS. Realpolitik


FANTAPOLÍTICA VS. REALPOLITIK

Venho percebendo o quanto hoje em livros didáticos e em campanhas de ONGs tem se falado sobre cidadania ou a participação do povo em política.

Acredito que tudo isso seja herança das décadas 1960 e 1970 quando a política desceu às praças e ruas na forma de protestos de bandeiras variadas rompendo o clima de repressão cinquentista inaugurado pela Guerra Fria. Protestos contra a guerra, o capitalismo e as ditaduras no Ocidente, e contra o Socialismo e a ditadura de estado no Oriente.

Os movimentos de 70 tiveram trunfos políticos limitados. Os manifestantes contra a Guerra do Vietnã com certeza bamberam a popularidade na opinião pública a respeito do presidente Ronald Reagan nos E.U.A e o Maio de 68 ajudou a encurtar o governo De Gaulle na França, mas as guerrilhas e movimentos comunistas no ocidente e o socialismo "de face humana" alardeado pela Primavera de Praga na Tchecoslováquia acabaram como símbolos das diversas utopias políticas adolescentes não realizadas a longo prazo.

No entanto embora de êxito político dúbio ou limitado esses movimentos foram vitoriosos culturalmente. Influências ainda sensíveis existem na maneira contemporânea de se vestir, pensar e no mundo das artes . Mesmo na política um dos legados mais vísiveis atualmente dessas décadas seja talvez todo o hype em torno do "direito das minorias" (minorias?) que inauguraram ( movimentos pelos direitos dos negros, mulheres, homosexuais, portadores de deficiências, e incluídos pelos ecologistas, os animais)

Esses movimentos trouxeram a política para longe das suas torres de marfim para o mundo do cotidiano e dos jovens, mostrando que dentro de governos republicanos ou democráticos mesmo o cidadão comum poderia ter sua participação, aliás tinha como dever a participação política. Mesmo delírios esquerdistas se pautavam nesse anseio por essa liberdade de ação.

No entanto quase quarenta anos depois a desilusão com a classe política tem nos mostrado no mundo ao contrário cidadãos cada vez mais desinteressados, desinformados e carregados de preconceitos a respeito do assunto política.

Creio que isso acontece por que hoje a tal política "cidadã" continua seguindo fórmulas esgotadas e teorias políticas anacrônicas. Idealismos que pregam em vão como o "mundo ideal" deveria ser. Nesse sentido tanto o anarquista que acredita na paz mundial ou advogados de práticas de redução de dano ambiental ou marxistas gramscianos estão muito mais próximos daquela tradição fantapolítica inaugurada por Platão em sua Repúlica e continuada por Thomas Moore em A Utopia, do que os arremedos de filosofias que originalmente os inspiraram.

Se conclama o cidadão a agir, mas cegamente sem lhe dar os aparatos conceituais necessários para que entenda os funcionamentos reais da política dentro de seu país, ou medidas pálpáveis de como aquelas reivendicações podem realmente ser conquistadas. Faltou na década zero um movimento cultural que conseguisse conciliar o "fazer sua parte" com a Realpolitik do dia a dia.

Afinal de contas quantas pessoas hoje entendem verdadeiramente de política? Sabem hoje como funciona um partido? Quem são os políticos que elegeram? Como funcionam as leis eleitorais? O que são os sistemas de alianças e como eles influenciam os governos e oposições? Quantos jovens fora de famílias oligárquicas sonham com a carreira política ou em participar dessa mesmo que seja a nível municipal? Quais são as ONGs que possuem um nível de organização o suficiente para coordenar protestos sérios ou que saibam aproveitar criativamente dos espaços disponíveis para a comunicação? (Eu confesso-me um analfabeto político)

Mas pensar nesse tipo de coisas causa desconforto ao cidadão médio. É melhor exigir a plenos pulmões soluções radicais "fora do sistema" ou mágicas, instantanêas trazidas por algum tipo de divindade ou pensamento positivo. Ficar simplesmente bestializado perante os crimes ou a incompetência dos governantes, ou fazer protestos faraônicos só por fazer. A Realpolitik não é tão fascinante, tão consolatória, tão "cool" quanto a fantapolítica.

Se uma década vindoura tal movimento cultural conciliatório entre cidadania e pragmatismo político vier a exisitir (sou fantapoliticamente falando um pessimista histórico) só se pode esperar que para que ele realmente tenha êxito seja endogêno e extraescolar, visto que a alta carga ideológica aliada a um cenário de analfabetismo funcional presente na educação brasileira e a alegada eficiente educação dos países de primeiro mundo tem ambas até o presente momento falhado em nos agraciar com os pranteados "cidadãos conscientes".

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Diatribes cinéfilas


+ DIATRIBES DO MUNDO CINÉFILO SUL-MINEIRO.

O curta “FICÇÃO” que eu e meus amigos vínhamos engendrando acabou após um exaustivo dia de gravação sendo cancelado. Entre outras razões para o cancelamento do nosso pet project a falta de agenda dos atores, e um deadline muito “apertado”.

Na verdade 1 mês seria um tempo generoso para um curta-metragem mas a nossa incompetência somada a prima-donnice do elenco acabou deixando tudo só no roteiro. Sou contra essa coisa de apressar as coisas (pelo menos dentro do nosso mundo amattore {não profissional}) só pra poder caber dentro do prazo de entrega.

Se for pra fazer algo corrido, melhor nem fazer.

De consolação (e ironicamente) acompanhamos desde o dia 8 de Maio a quarta feira da semana passada a excelente iniciativa do Cineclube da MOSCA, organizado por Carlos Eduardo Magalhães de Aguiar.

Assisti feliz e gratuitamente filmes excelentes como o humanissímo “Viagem a Darjeeling” de Wes Anderson e o curioso e bisonho documentário brasileiro “O Beijoqueiro: Portrait of a Serial Kisser”. Os curtas-metragens também forma ótima fonte de reflexão e entretenimento, entre eles um dos meus curtas favoritos, o antológico (em versão digital ) “Ilha das Flores” de Jorge Furtado.

Ponto alto ainda pra exibição de uma versão com montagens e áudio atuais de “Testemunha Oculta” de Zé Pintor, um são carlense pioneiro, amador e amante do cinema que realizou na década de 60 fora de qualquer pólo de cinema nacional e película diversos médias envolvendo gêneros variados como o policial, o faroeste, alegorias espíritas e o Egito antigo (WTF?!).

Zé Pintor mostrou que somos todos mesmo um bando de inúteis, anões degenerados perto dos grandes gigantes do passado. Após de tudo fica o gostinho do curta próprio não realizado, mas reforçou minha opinião de que o hobby “fazer cinema” pra quem não quer vestir profissionalmente a camisa de diretor ou produção televisiva é só mais uma dor de cabeça.

O ponto fraco do Cineclube ficou pro datado, indigestíssimo e metido a Cinema Novo, “Tudo Bem” de Arnaldo Jabor.

Um dia talvez me animo de fazer um post só sobre esse filme. Mas não sei se vale a pena. =)